domingo, 1 de dezembro de 2019

A culpa é da criança?



A culpa é da criança?

Quando eu era menina adorava ir para Goiânia e passar as férias na casa da minha tia Iracema e brincar com os meus primos. Erámos uns vinte primos todos amigos e da mesma faixa etária. Só casa de tia tínhamos cinco diferentes que podíamos dormir para brincar com eles. Meus primos eram tão queridos que não por acaso são chamados até hoje de primos irmãos. A vida com eles era uma aventura. Como fui feliz na minha infância! Meus pais nos deixavam passar todas as férias em Goiânia e nem se preocupavam com a gente porque sabiam que seríamos muito bem cuidados pelos nossos tios.

Naquela época os nossos pais respeitavam os seus irmãos e confiavam plenamente em nos deixar na casa deles durante as férias. Nossos tios tinham autoridade paternal sobre nós e nossos pais jamais  questionavam isso. Nos deixavam sob sua proteção e, portanto, sob sua autoridade,  também! Por que proteção sem autoridade que tem é baba e não tios! Totalmente diferente dos dias de hoje!

Hoje os pais além de terem poucos filhos, não respeitam seus irmãos, os tios de seus filhos, não educam os filhos que não aprendem a conviver com os primos e a obedecer os tios. É um mundo totalmente egocêntrico em que a única regra que existe na “educação” de seus filhos é: todos têm que respeitar o meu filho! Respeitar? Meu amigo se quer que seu filho seja respeitado ensine-o a respeitar os mais velhos e principalmente os tios! O resto é consequência natural da vida! Por que a vida seleciona naturalmente aquelas crianças mimadas que não aprenderam a respeitar os mais velhos. Simples assim!

E se você não ensinar essa regra básica de convivência em sociedade ao seu filho, sinto muito, mas, não adianta encher de presentes, cursos extra-curriculares, computadores, viagens, festas de aniversário, etc... Mais cedo ou mais tarde eles vão aprender a lição mais importante da vida, e não vai ser com os pais não! Vai ser no mundo mesmo! Essa lição é bem simples: quem quer respeito dá respeito antes de tudo aos mais velhos e aos mais próximos!

Mas,  infelizmente,  hoje,  os pais não respeitam os seus próprios irmãos, os tios de seus filhos. Então, como passar isso para os seus próprios filhos? Quando os pais usam seus irmãos somente para serem babás de seus filhos, sem dizer “meu filho respeite o seu tio”, “meu filho obedeça os seus tios”, “meu filho enquanto eu estiver fora você deve ouvir, obedecer e respeitar seu tio”, as crianças crescem sem respeitar os tios e achando que os tios têm a obrigação de cuidar deles, sem que eles precisem obedecer ou respeitar! E se esquecem que precisam amar, ouvir, obedecer e respeitar os tios não somente na ausência dos pais, mas, principalmente, na presença deles!

Porque os tios não são peças que usamos quando precisamos de alguém para nos ajudar a olhar e cuidar de nossos filhos em nossa ausência, não! Quem usamos para isso são as  babas, que pagamos, e não os tios que fazem isso por amor! Os tios são a primeira fonte de aprendizado e respeito ao próximo. Por que a criança tem um vínculo de amor diferente com seus tios, que não são seus pais, e, por isso mesmo, tem que amá-los e respeitá-los.

Os pais são o exemplo de vida e comportamento para os filhos, que são o reflexo de seus pais, e, assim,  se eles não derem o exemplo no tratamento com os seus irmãos, como os filhos vão respeitar os tios? E se não respeitarem os tios, aí meus amigos, esqueçam, não vão respeitar mais ninguém nessa vida! E as consequências só a vida vai mostrar!

Que a vida possa mostrar a todos que família deve ser exemplo de educação e respeito ao próximo e não um espelho de vaidades que torna as crianças minadas e adultos egocêntricos!

Sylvana Machado Ribeiro . 



quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O picolé que salva





O picolé que salva

Com o tempo percebemos que às vezes o sofrimento pode ser transformado em alegria e até pode salvar vidas. Normalmente não gostamos de guardar na memória lembranças tristes, mas essas podem nos ajudar a purificar a alma se conseguirmos transformar o sofrimento em ação benéfica.
Principalmente se for em benefício daquele que nos causou sofrimento.

Há muitos anos em um colégio particular no interior de Minas Gerais, na cidade do Prata vivia um menino muito inteligente que era aluno bolsista. Naquela época nem existia isso, mas esse menino por ter uma inteligência acima do normal conseguiu, com a ajuda de seu irmão que fez uma carta para o diretor da escola, se matricular em um colégio particular e terminar o ensino do primeiro grau.

Como ele morava em outra cidade, em Buriti Alegre- Goiás, teve que se mudar de cidade e foi morar no próprio colégio trabalhando meio período como Office Boy para pagar os estudos.  Enfim, ele morava, trabalhava e estudava no colégio.

Todos os dias o diretor lhe dava alguns trocados e mandava-o comprar um picolé para ele. O menino que tinha treze anos comprava e levava para o diretor. Mas ele ficava morrendo de vontade de chupar um picolé também! E o diretor era tão insensível que não percebia isso e nunca fez a caridade de lhe dar um picolé! O menino sonhava com esse picolé, mas não tendo dinheiro para comprar, ficava só na vontade!

Em compensação ele estudava tanto que sempre tirava as melhores notas do colégio! Ele sempre foi o melhor aluno de todos! Sua inteligência e esforço fizeram com que se destacasse de todos os outros alunos. Enfim, apesar do trabalho, da distância da família e do sofrimento de não poder chupar um picolé ele conseguiu se formar. O mais triste não era não chupar o picolé, era ir comprar, todos os dias para o diretor e ficar passando vontade sem poder chupar um também! Isso para um menino de treze anos, à época, era um enorme sofrimento!

Muitos anos depois esse menino passou no concurso do Branco do Brasil e se mudou para Brasília. Constituiu família, teve quatro filhos, e tinha uma vida financeira estável e confortável.

Um belo dia ele recebeu uma carta de um antigo conhecido que estava em dificuldades financeiras e precisava de sua  ajuda, pois não tinha mais a quem recorrer. Pedia-lhe, encarecidamente, que lhe ajudasse em memória daqueles tempos em que lhe deu a oportunidade de trabalho, no início de sua vida, quando ainda era menino!

Esse menino, ao contrário da maioria das pessoas que se lembraria com tristeza das vezes em que passava vontade de chupar picolé, e negaria sua ajuda, pelo contrário, ficou muito feliz em poder ajudá-lo, pois sua personalidade sempre foi de pessoa caridosa que sempre ajudou aos seus, e a todos os que lhe pedissem ajuda! 

Assim, ele não teve dúvida: fez o depósito da quantia solicitada e ainda lhe mandou uma caixa de picolé com um bilhete que dizia:

"Às vezes um picolé pode salvar uma vida".
Seja muito feliz!
Com respeito, seu ex-aluno e office Boy.
Odilon Ribeiro.

Sylvana Machado Ribeiro.